Ativos digitais: como garantir a sucessão patrimonial?

A sucessão patrimonial deixou de envolver apenas imóveis, contas bancárias e ações. Hoje, o patrimônio inclui perfis em redes sociais que geram receita, criptoativos e até direitos de imagem recriados por inteligência artificial.

Mas como garantir que esses ativos digitais sejam transmitidos aos herdeiros? E mais: como equilibrar direitos de personalidade, privacidade e exploração comercial após a morte?

O conflito entre regimes jurídicos

Um inventário tradicional pressupõe bens tangíveis, identificáveis e titulados. Porém, o patrimônio digital opera em outra lógica: é contratual, descentralizado e muitas vezes invisível.

O projeto de atualização do Código Civil, apresentado em 2025, foi a primeira tentativa de regulamentar herança digital no Brasil. Antes disso, apenas contratos privados entre as Partes e os termos e condições das plataformas digitais ditavam as regras, que, no entanto, não dialogavam com o direito sucessório brasileiro.

Primeiro risco: plataformas que não reconhecem herdeiros

Algumas das principais plataformas digitais de mídias sociais operam com termos de uso globais que nem sempre consideram a titularidade dos herdeiros legítima. Algumas, por exemplo, entendem que o perfil pertence à plataforma, não ao usuário.

Qual é o risco?

Herdeiros legítimos podem perder acesso a ativos valiosos, porque a plataforma digital não reconhece seus direitos, e, de outro lado, plataformas digitais de mídias sociais serem demandadas, judicial ou extrajudicialmente, pelos herdeiros para acesso ao conteúdo e manutenção de perfis e contas.

Possível atuação

Assessoria jurídica na elaboração de instrumentos preventivos.

Segundo risco: a invisibilidade dos ativos

Muitos ativos digitais apresentam características que dificultam sua identificação no inventário:

  • Criptoativos: dependem de chave de acesso, sem ela, o patrimônio se perde;
  • Dados em nuvem: armazenados em infraestrutura descentralizada, sem titularidade clara;
  • Contas em plataformas: regidas apenas por termos de uso, sem registro formal de propriedade.

Qual é o risco?

Não apenas a disputa entre herdeiros, mas principalmente a invisibilidade do ativo. Sem documentação adequada, o patrimônio pode desaparecer completamente, mesmo existindo.

Possível atuação

Realizar planejamento sucessório que mapeie juridicamente esses ativos ainda em vida, estabelecendo protocolos claros de acesso e governança digital.

A decisão do STJ sobre inventariante digital

Em 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgou caso emblemático: uma família que perdeu membros em acidente de avião pediu acesso às contas de e-mail no Google para localizar patrimônio.

O Google negou o pedido. Após debate acalorado, o STJ criou a figura do inventariante digital: um perito nomeado judicialmente para acessar contas, verificar conteúdo econômico e levá-lo ao inventário.

A decisão gerou debate: permite acesso indireto ao conteúdo, invadindo a intimidade da pessoa falecida, mesmo com contraditório.

Lacunas legislativas e novos desafios

Apesar dos avanços, ainda há lacunas significativas:

  • Não existe nenhuma regulamentação específica sobre criptoativos e o tratamento sucessório;
  • Tensão não resolvida entre sucessão, privacidade e confidencialidade;
  • Ausência de regras sobre ressurreição digital por inteligência artificial;
  • Testamentos tradicionais insuficientes para contemplar ativos digitais.

Como se blindar?

A principal proteção jurídica é a antecipação. Plataformas como Apple e Meta já permitem declarações de “Legacy” (pessoa autorizada a acessar dados após a morte), mas isso não basta.

O que pode ser previsto em planejamento sucessório:

  • Quem terá acesso a contas e plataformas digitais;
  • Como administrar perfis que geram receita publicitária;
  • Limites de uso de imagem, voz e ressurreição digital;
  • Destinação de criptoativos e registro de chaves de acesso;
  • Governança de dados pessoais e conteúdos digitais.

Aspectos empresariais da herança digital

Empresas também precisam se preparar. CEOs e influenciadores corporativos geram valor econômico através de sua imagem e conteúdo. Em operações de fusões e aquisições, perfis em redes sociais tornaram-se ativos milionários.

Conclusão: direito estratégico, não apenas operacional

A herança digital exige visão técnica, antecipação de riscos e estratégia preventiva. Não se trata apenas de redigir testamentos, mas de mapear ativos invisíveis, negociar com plataformas globais e estabelecer governança digital patrimonial.

Quanto mais patrimônio digital e exposição pública, maior a urgência: resolver essas questões em vida evita que tribunais decidam sem conhecer a vontade do falecido.

A pergunta que fica é: estamos preparados para a próxima geração de conflitos sucessórios, que envolverão não apenas bens, mas identidades digitais inteiras?

Este boletim apresenta um resumo de alterações legislativas ou decisões judiciais e administrativas no Brasil. Destina-se aos clientes e integrantes do Cescon, Barrieu, Flesch & Barreto Advogados. Este boletim não tem por objetivo prover aconselhamento legal sobre as matérias aqui tratadas e não deve ser interpretado como tal.

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