Recentemente, os laboratórios de fronteira no desenvolvimento de grandes modelos de linguagem (LLMs), como OpenAI e Anthropic, têm apresentado descobertas significativas na matemática, avançando sobre problemas que os pesquisadores mais capazes do planeta estudavam havia décadas sem que conseguissem chegar a uma solução.
Um dos casos que mais chamou atenção ocorreu em maio, quando um modelo interno da OpenAI refutou a conjectura das “distâncias unitárias”, proposta por Paul Erdős em 1946, explorando uma estrutura algébrica mais sofisticada do que qualquer uma tentada até então.
Em 6 de outubro, a OpenAI publicou de uma só vez 722 manuscritos com resultados gerados por um modelo ainda não lançado. No mesmo dia, publicações relataram que um algoritmo encontrado pelo Claude, da Anthropic, refutaria a hipótese do 3SUM, segundo a qual um problema clássico da computação não poderia ser resolvido de forma fundamentalmente mais rápida do que pelo método óbvio.
O ponto comum dessas descobertas é que boa parte delas derrubou, ou estaria derrubando, uma crença de que algo não podia ser feito melhor ou de forma mais eficiente do que havíamos descoberto até então. E é aqui que entra o potencial desafio para as criptomoedas.
Praticamente toda a criptografia moderna, incluindo a que protege as criptomoedas, se apoia em problemas matemáticos que julgamos extremamente difíceis de resolver, mas nunca provamos que são. Provar isso é, por si só, um dos grandes problemas em aberto da matemática.
Diante desse cenário, Justin Drake, pesquisador da Ethereum Foundation, defendeu que já é razoável se preparar para a possibilidade de a IA quebrar a criptografia do Bitcoin e do Ethereum antes mesmo do computador quântico. No pior cenário, segundo ele, isso poderia ocorrer em meses, e não anos. Um atacante poderia recuperar a chave privada de uma carteira em cerca de uma semana, usando um grande cluster de GPUs.
O risco ainda é hipotético, uma vez que não se tem notícia de nenhum ataque desse tipo tendo sido realizado. Mas Drake já está recomendando aos detentores de Bitcoin e Ethereum que adotem o “bunker mode” (migração dos ativos para endereços que nunca assinaram transações e cuja chave pública permanece oculta). No longo prazo, propõe adotar assinaturas baseadas apenas em funções de hash, como o SPHINCS+, que ele descreve como criptografia “pós-IA”.
Ainda assim, a reflexão é extremamente válida, porque o impacto não se limitaria às criptomoedas: a mesma família de criptografia sustenta boa parte da segurança da internet.
Aterrizando o tema no direito digital, a miríade de desafios que este tipo de problema traz é gigantesca. A LGPD exige que os agentes de tratamento adotem medidas de segurança aptas a proteger dados pessoais, e prevê que os padrões técnicos mínimos a serem definidos pela ANPD considerem, entre outras coisas, “o estado atual da tecnologia”. Ou seja, a régua de exigência de segurança da informação é móvel, mesmo que nada seja alterado do ponto de vista dos dados tratados, sistemas utilizados etc.
Soma-se a isso o fato de que poucas empresas sabem onde , como e que tipo de criptografia usam em seus sistemas e fornecedores, e sem esse mapa não há como migrar rápido quando for preciso. Além disso, os planos de resposta costumam pressupor uma falha ou um invasor, não o cenário em que a própria matemática torna a criptografia enfraquecida.
Ainda é cedo para dizer se o alerta de Drake é crível ou não, mas vale passar a incluir a criptografia no mapa de riscos e ter um plano de transição antes de precisar dele.